Boletim
7 de julho de 2017

Novo livro de Luiz Eduardo Soares é lançado na Maré

luiz_vp Luiz Eduardo Soares e Francisco Maringelli. Foto: Douglas Lopes

Escrito com base na experiência do projeto Aluno Presente, “Vidas Presentes” traz uma narrativa sensível e coloca foco em problemas que a sociedade insiste em não ver

Andreia Blum e Dani Moura para a Cidade Escola Aprendiz

Ao fundo, gravuras de Francisco Maringelli que ilustram o novo livro de Luiz Eduardo Soares, “Vida Presentes”. No palco, falas que arrancam aplausos da plateia. Até que todos se levantam numa homenagem aos 70 articuladores do projeto Aluno Presente. E não foi por acaso. De porta em porta, nas ruas dos 161 bairros do Rio de janeiro, eles conseguiram identificar e acompanhar 23.753 crianças em situação de vulnerabilidade escolar. Num trabalho intersetorial com as secretarias municipais de Educação, Saúde e Assistência Social, 22.131 retornaram e permaneceram na escola na cidade. Fruto do trabalho desses 70 articuladores.

Tatiana foi uma dessas guerreiras: “Vi o quanto essas famílias são desassistidas. Muito próximo a minha casa, tinham famílias clamando por socorro e eu não imaginava. Tinha criança que nunca teve acesso à escola. Nunca vivi uma experiência tão magnífica quanto esses 3 anos de projeto”, disse a ex-articuladora com a voz embargada.

Tereza foi outra que se sente transformada pelo projeto e hoje luta contra a invisibilidade das pessoas que estão em vulnerabilidade social. “Foi para mim um divisor de águas porque eu nunca tinha visto isso de perto, estar nas ruas, entrar na casa das pessoas para saber o porquê da criança não estar na escola. E você percebe que educação é mais que português e matemática. Temos que descobrir que escola que queremos”, afirmou a articuladora.

teresa_vp Tereza, articuladora social. Foto: Douglas Lopes

Tábata Lugão trabalhou por nove meses no projeto. “Vi descaso, fome em pleno Rio de Janeiro, desemprego, problemas sérios de saúde mental e drogas. O projeto deu visibilidade para esses problemas”.

Foi a partir do relato dessas experiências que o antropólogo Luiz Eduardo Soares escreveu 15 contos emocionantes que colocam foco em problemas que a sociedade insiste em não ver. “O que mais me impressionou foi a competência, sensibilidade e maturidade dos articuladores, grupo de profissionais formado em grande maioria por mulheres. São histórias extraordinárias e multidimensionais. A Tereza e a Tatiana já deram régua e compasso. Não se trata de colocar só na escola. Trata-se de se tecer uma rede com as famílias, poderes, associações, e isso é uma metodologia completamente nova. Precisamos respeitar o território, dialogar com poderes e nos aproximar das famílias sem julgá-las, sem acusá-las”, disse o autor de “Vidas Presentes”.

Foram três anos de trabalho na cidade do Rio de Janeiro, entre 2013 e 2016. Saúde mental, desemprego, fome, desassistência do Estado, violações de direitos essenciais são temas recorrentes nos relatos a respeito das razões da evasão escolar. Para Natacha Costa, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz – organização responsável pelo desenvolvimento da metodologia e execução do projeto – o grande desafio do trabalho é superar os limites no direito à educação. “Fico feliz de ter esses relatos históricos escritos por Luiz, a luta é por uma causa contínua, por uma política permanente. Já temos parceiros importantes e fortes como a Secretaria Municipal de Educação, que promete transformar o projeto em política pública”, destacou a gestora.

Para a Secretaria, a promessa será cumprida em 2018 e já no segundo semestre serão iniciadas as conversas para essa parceria. “Eu já tinha uma expectativa de que iria encontrar algo inovador e surpreendente. Não podemos deixar nenhuma criança fora da escola. É essa a demanda da sociedade. Nós temos na rede 14 mil crianças deficientes acompanhadas à custa de muito esforço. É a rede pública que salva milhares de pessoas diariamente. É por essa obrigação de ter criança dentro da escola que descobri esse projeto que faz um trabalho silencioso e que tem que estar dentro da rede efetivamente. Vamos trabalhar para que no segundo semestre possamos começar a transformá-lo em política pública”, disse o atual secretário de Educação do município, César Benjamin.

Notícia que Tatiana comemora: “Foi muito triste dar adeus ao projeto, e mesmo fora eu anda assisto essas famílias. A escola tem que ser um lugar acolhedor e ver o outro como parte dela. A escola precisa não ter muros para perceber a sociedade e a sociedade precisa ver a escola. O projeto ainda é muito necessário; não pode acabar por aqui”.

As famílias atendidas pelo projeto também estavam na plateia na noite de quarta-feira, no Centro de Artes da Maré, assim como um público de cerca de 200 pessoas entre representantes de órgãos públicos, organizações sociais, empresas e moradores da Maré. Cíntia Ramos é mãe de Lucas de 12 anos. Moradora da Nova Holanda, não conseguia matricular o filho, por falta de vagas. O menino Lucas ficou 4 meses sem estudar até que foi descoberto por uma das articuladoras do projeto. “Se não fosse o projeto, ele estava sem estudar até hoje”, relata a mãe.

autografo_vpFoto: Douglas Lopes

Já Elaine Felix, moradora da Mangueira, sabia que o prédio abandonado vizinho a sua casa tinha sido ocupado por 140 famílias. E por lá muitas crianças estavam sem estudar. Mas apesar do esforço, ela, como assistente social, não conseguia matricular as crianças. Com a chegada da articulação do projeto mais de 90 crianças voltaram a estudar em apenas dois dias.

Uma causa comum da evasão é a falta de habilidade da escola em tratar temas comportamentais dos alunos. Crianças que dão mais trabalho geralmente não são bem-vindas em algumas instituições públicas de educação. Tatiana Silva, 41 anos, tem 5 filhos. Um deles passou por isso. Por mau comportamento, o menino, de 9 anos, foi expulso da escola. Hoje, por meio do projeto, em outra escola, o menino está melhor e mais calmo. “Se não fosse o projeto eu acho que estaria presa” disse a mãe.

O projeto Aluno Presente é uma iniciativa da Associação Cidade Escola Aprendiz, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, com o apoio da Fundação Education Above All (Qatar), por meio do programa internacional Educate a Child. A versão digital do livro “Vidas Presentes” está disponível para download no site do projeto.