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5 de maio de 2015

Cidade Escola Aprendiz recebe ministro Renato Janine e grupo de educadores para debate sobre desafios da educação pública e experiências de inovação

O encontro trouxe à discussão temas como a universalização do ensino básico e superior, a formação de educadores e a qualidade do processo de ensino-aprendizagem

Na tarde da última quinta-feira, 30 de abril, o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, esteve na sede da Associação Cidade Escola Aprendiz, em São Paulo, para conversar com educadores que vêm repensando as bases dos modelos educacionais no Brasil e estão à frente de iniciativas que trazem inovações principalmente nas formas de organizar tempos, espaços e currículo e de conceber as relações aluno-professor e escola-comunidade.

A convite do ministro, participaram do encontro Tião Rocha – fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) em Minas Gerais, José Pacheco – idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, e hoje no Projeto Âncora em Cotia (SP), Miguel Arroyo – professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Ladislau Dowbor – professor de Economia da PUC-SP, Sonia Kruppa – professora da Faculdade de Educação da USP e Maria Teresa Mantoan – professora da Faculdade de Educação da Unicamp, além de Helena Singer e Natacha Costa, da coordenação geral da Cidade Escola Aprendiz, organização que atua na pesquisa, articulação e apoio a projetos e políticas públicas alinhadas com essa perspectiva de inovação na educação.

ministro e educadores

 

A necessidade de se repensar a formação – inicial e continuada – de professores e diretores, a construção de indicadores de qualidade da educação – e sua garantia – na direção de uma escola que tematize a vida, o incentivo à criatividade e a universalização do ensino médio e superior, após a quase universalização do ensino fundamental, foram as principais questões debatidas pelo grupo.

“É preciso fortalecer um discurso capaz de mobilizar toda a sociedade em torno de um projeto maior para a educação, um projeto que fortaleça a quarta agenda democrática, aquela que foi reivindicada nas manifestações de junho de 2013, a da qualidade dos serviços públicos” – expôs o ministro na abertura da reunião.

Para Natacha, é fundamental debater uma proposta de educação que atenda a um projeto de nação. O debate atual tem se limitado à proposição de estratégias e procedimentos, sem que se defina que tipo de formação é preciso oferecer para construirmos o país que desejamos. É primordial o estabelecimento de pontes entre sujeitos e instituições que se sintam convocados por essa tarefa, coloca. “A Cidade Escola Aprendiz, desde sua fundação, busca articular, unir e somar forças para fazer da educação brasileira uma chave de desenvolvimento para todos. Essa é a base do Bairro-escola, conceito e prática que nos constituiu, e é a grande marca de nossa atuação hoje, quando completamos 18 anos. Por isso é uma honra extraordinária para a organização construir um espaço de diálogo entre o atual ministro da Educação e pessoas que são grandes referências na construção de uma agenda progressista e inovadora para a educação brasileira.”

Relatos

Durante o encontro, os educadores expuseram suas visões sobre alguns dos maiores desafios atuais e apresentaram exemplos de trabalhos que vêm desenvolvendo em diversas cidades do país. Para Arroyo, é importante que o MEC destaque as boas práticas que a escola pública promove para superar as injustiças a que são submetidas inúmeras crianças e adolescentes que estão chegando agora à escola. Temos muitos bons exemplos, mas é fundamental uma mudança profunda na gestão e na docência para acolher estes novos alunos. “É preciso investir na reestruturação da coluna vertebral da escola, formada pelo trabalho do professor, e hoje marcada pela fragmentação do tempo e pela lógica etapista do percurso escolar”, defendeu o educador.

Na mesma perspectiva, Maria Teresa Mantoan ressaltou a importância da questão do acesso, permanência e participação de todos os alunos, com suas diferentes características, visões e habilidades, apontando os desafios de um ensino que se propõe a oferecer espaço igualitário, tanto nas escolas públicas como nas privadas. “Nos últimos anos, avançamos conceitualmente na celebração da diversidade, mas ainda é preciso avançar nas atitudes e na efetiva acessibilidade de todos ao conhecimento, à comunicação, à informação, aos ambientes físico, social e laboral.” Para Mantoan, a Política Nacional de Educação Especial já trouxe a perspectiva da Educação Inclusiva e garantiu que praticamente todas as crianças estivessem dentro da escola. No entanto, é preciso avançar na política de inclusão em dois aspectos fundamentais: investir na formação de professores e fazer ampla divulgação na mídia dos benefícios da inclusão escolar na qualidade da educação para todos os estudantes, com e sem deficiência.

“Todas as medidas impostas de cima para baixo falham porque os professores não as aplicam, mas as medidas que nascem de baixo também morrem porque não se articulam com a universidade e com o poder público”, alertou José Pacheco. Para ele, o efetivo processo de mudança precisa garantir esta articulação. Pacheco acredita que o foco deve ser o fomento à atitude de cuidado com as pessoas, com os estudantes e educadores, como propõe o Projeto Âncora, escola que orienta em Cotia, SP, e mais de 200 escolas com projetos educativos inovadores que ele já mapeou no Brasil.

Sonia Kruppa apontou a necessidade de o MEC se relacionar de modo diferenciado com a grande diversidade de municípios do país e, para tanto, apoiar processos de organização regional. Um exemplo é a inclusão das crianças de quatro e cinco anos nas escolas, que em muitos lugares está sendo feita com a extensão da estrutura usada para o ensino fundamental. Isso acontece porque a educação infantil é cara e muitos municípios não possuem recursos para fazer esta inclusão com qualidade. Este tema deveria ser debatido e encaminhado regionalmente. A professora afirmou também que os ranqueamentos decorrentes das avaliações externas acabam por agravar os problemas da escola e mencionou pesquisas sobre as estratégias de autoavaliação e de avaliação institucional que se apresentam como alternativas superiores.

grupo

 

A visão da escola como uma articuladora do desenvolvimento local foi o ponto central levantado por Ladislau Dowbor. Para ele, o contexto histórico e cultural de um território deve ser tema de estudo com os alunos, estando presente nos cursos de formação de professores e nos materiais pedagógicos. Dowbor citou a experiência educacional da hidrelétrica Itaipu Binacional, na qual um sistema envolveu diversos municípios e cuja filosofia teve a escola como foco do desenvolvimento da região. Quando a escola possibilita que as crianças passem a conhecer e compreender mais o lugar em que vivem, estas são estimuladas e empoderadas a transformar suas realidades.

Tião Rocha encerrou as apresentações trazendo relatos de iniciativas que caminham justamente neste sentido. Contou sua experiência no Maranhão, voltada para a constituição de centros de excelência, nos quais as disciplinas são superadas pela harmonia dos conhecimentos necessários para se conquistar a sustentabilidade local,  e também sua experiência no Vale do Jequitinhonha, onde a comunidade foi convocada para educar os meninos considerados “insuficientes” pelas escolas. “Todas as crianças são capazes de aprender em seu ritmo e no seu tempo, mesmo que não gostem de estudar. Em pouco tempo, de forma prazerosa, as crianças aprenderam tudo o que precisavam para se desenvolverem em suas cidades, sem precisar ir para o corte da cana. Este processo de criação de condições para que os jovens permaneçam em suas comunidades não se faz com projetos isolados. É preciso uma plataforma em torno de uma causa, que mobilize e comprometa as pessoas”, declara Tião.

encontro

 

Perspectivas

A socióloga Helena Singer, que atuou como diretora da Cidade Escola Aprendiz nos últimos sete anos e foi recém convidada pelo ministro para assessorá-lo em Brasília, viu o encontro como marco inicial de sua nova agenda, que deve ser pautada por uma série de debates, reuniões e trocas com propostas da mesma natureza. “Vou para o ministério com o papel de mapear, fomentar e dar visibilidade para iniciativas criativas na educação, será fundamental promover rodas de conversa como esta para definir referências e parâmetros sobre o que é criatividade e inovação na educação”, explica Helena.

Para Natacha, essa é uma agenda que segue compartilhada pela organização. “Nós, na Cidade Escola Aprendiz, continuamos nosso trabalho, articulando iniciativas e educadores que vêm dando exemplo, disseminando as boas práticas e apoiando gestores públicos no desenvolvimento de políticas educacionais de qualidade humana e social. O MEC pode contar com nossa colaboração para avanço desta agenda”, conclui.